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Pesquisa aponta presença de fármacos em recursos hídricos

  • Por: Assessoria de Imprensa
  • Fotos: Divulgação

O descarte incorreto de medicamentos pela população na região de Passo Fundo está entre as principais causas para esse resultado de pesquisa, publicado em revista internacional

Indícios científicos apontam presença de fármacos em recursos hídricos e podem ser resultado de descarte incorreto de medicamentos pela população na região de Passo Fundo. Essa é a constatação de estudo entre a Universidade de Passo Fundo (UPF), Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e Universidad de La Costa da Colômbia, publicado na revista Science of the Total Environment, periódico internacional, conceituado no meio científico.

A discussão sobre o descarte adequado de fármacos não parece acompanhar o ritmo da sua produção e distribuição, ainda mais durante a pandemia deflagrada devido ao vírus Sars-CoV-2. O descarte incorreto de medicamentos vencidos, inutilizados ou em desuso pode acarretar a contaminação, atingindo diversos segmentos ambientais como a água, o solo, a cadeias produtiva dos animais e, por consequência, os seres humanos. 

Os efeitos dessas substâncias como contaminantes de fauna e flora envolvem toxicidade direta a vários organismos aquáticos, acarretando na morte e subdesenvolvimento de diversas espécies, o que resulta no crescimento exacerbado de alguns animais em detrimento de outros, desregulando a capacidade de autodepuração e a cadeia alimentar da natureza. Além disso, a presença de fármacos pode levar ao desenvolvimento de micróbios e bactérias mais resistentes. 

Diversos estudos científicos já constataram que o maior impacto ao meio ambiente de princípios ativos de fármacos é causado pelo descarte dos consumidores e é menor devido ao processo industrial de fabricação. O Brasil ainda não regulamentou totalmente a logística reversa desses produtos. De acordo com a professora do curso de Química da UPF, Dra. Clóvia Marozzin Mistura, a logística reversa é um dos instrumentos da nova Política Nacional dos Resíduos Sólidos e determina o descarte correto desses resíduos, na qual os consumidores devem levar os medicamentos inservíveis e em desuso para as farmácias, onde é armazenado e recolhido adequadamente pela distribuidora, responsável por destinar até as indústrias, que se encarregam de levá-los até um ponto de descarte ou local ambientalmente adequado, sem causar danos ao meio ambiente.

No entanto, na prática, a população ainda realiza o descarte incorreto. Além disso, segundo a pesquisa, os hospitais acabam por apresentar em seus efluentes brutos um ponto de geração de possíveis descargas de contaminantes de fármacos. Em torno de 90% dos casos, a molécula ou composto original é excretado na urina e nas fezes após o consumo, além dos metabólitos, que são os produtos da degradação no organismo ou ambiente aquático, dependendo das condições do mesmo. 

Nesse contexto, a pós-graduanda da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Me. Yasmin Vieira, realizou estudos a partir da coleta de diversos pontos de recursos hídricos próximos ao despejo de esgotos que podem conter efluentes hospitalares de Passo Fundo, que foram caracterizados em termos de concentrações de fármacos presentes. “Os resultados encontrados demonstraram que a concentração está acima das normalmente publicadas em outros trabalhos semelhantes. Algumas substâncias, como diclofenaco e ibuprofeno, foram encontradas em concentrações superiores aos demais, o que indica que houve descarte direto nestes efluentes. No total, 16 princípios ativos de fármacos foram identificados, sendo em sua maioria pertencentes às classes de reguladores de pressão arterial, anti-inflamatórios, analgésicos e antidepressivos”, revela Yasmin. 

As análises dessas amostras e determinação dos fármacos foram realizadas como parte do projeto de doutorado da pós-graduanda, intitulado “Desenvolvimento de materiais para adsorção, seguida de catálise assistida por Micro-ondas (MW, do inglês: Microwaves) para tratamento de efluentes hospitalares”, sob orientação do professor Dr. Guilherme Luiz Dotto, no programa de Pós-graduação em Química da UFSM. A pesquisa foi realizada em parceria com a UPF e com a participação da empresa de Consultoria Química: Ecoambiental, que atua na região de Passo Fundo (RS) desde 1996. Ainda, participaram da elaboração dos experimentos e discussão das análises os acadêmicos de pós-graduação Jandira Leichtweis e Hércules Abie Pereira, e os professores Dr. Edson Luiz Foletto (UFSM) e Dr. Luis Felipe Silva Oliveira (Universidad de la Costa, Colombia). O trabalho completo encontra-se disponível AQUI.

Estudo foi publicado em revista científica internacional
O estudo completo foi publicado em periódico internacional bastante conceituado no meio científico, a revista Science of the Total Environment, avaliada como critério máximo pela Capes (Qualis A1) e fator de impacto 6.551.  Conforme os pesquisadores envolvidos, monitoramentos deste tipo devem ser incentivados pelos órgãos de saneamento e de controle ambiental, deixando os bancos acadêmicos e sendo relatados para a população em geral, principalmente como forma de sensibilizar para o descarte correto de medicamentos e a implantação efetiva da logística reversa no país,  melhorando assim, a qualidade da água captada e dos recursos hídricos, que tanto valor têm para a sobrevivência da humanidade, seguindo o preconizado pelos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU 2030 (ODSs) que determinam o cuidado socioambiental das populações e do planeta.