Por: Assessoria de Imprensa
Fotos: Bruna Stefani
Iniciativa pioneira busca melhorar a cadeia do leite por meio da análise de dados com o uso de inteligência artificial. Projeto foi apresentado durante debate na Expodireto Cotrijal
Destaque nacional nas áreas da pesquisa e da inovação, a Universidade de Passo Fundo (UPF) inicia o ano de 2026 com a ampliação da capacidade de produção de conhecimento e de soluções na cadeia produtiva do leite. Este avanço passa a se tornar realidade com a chegada de novos equipamentos adquiridos com recursos da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), por meio do projeto “Tecnologias de inteligência artificial no setor leiteiro”. A iniciativa foi apresentada durante o Conecta GZH, debate promovido pela GZH Passo Fundo, nessa quarta-feira, 11 de março, durante a Expodireto Cotrijal.
Com o tema "Do campo ao consumidor: como a tecnologia pode elevar a qualidade do leite gaúcho", o debate abordou a modernização das análises para fortalecer a produção na metade norte do Estado, responsável por 70% do volume do RS. Os convidados foram os professores da UPF Carlos Bondan e Clovis Tadeu Alves, e o presidente da Emater/RS Claudinei Baldissera, que apresentaram perspectivas econômicas e tecnológicas para o setor leiteiro.
O projeto desenvolvido pela Universidade conta com um investimento de cerca de R$ 2,8 milhões, utilizados na aquisição de três equipamentos. Dois deles já estão em fase de instalação na Universidade. O sistema de análise espermática será utilizado nas pesquisas sobre reprodução animal. Já o equipamento de análise de leite está em fase de testes no Laboratório de Serviços de Análise de Rebanhos Leiteiros (Sarle) da UPF e permitirá uma análise mais completa do leite. A partir destas novas aquisições será estruturado um centro de inteligência artificial voltado ao monitoramento da qualidade do leite, considerando todos os fatores que influenciam o produto, desde a propriedade rural até o consumo final.
Para Bondan, entre as principais vantagens desta nova fase está a ampliação das informações obtidas a partir de uma simples amostra de leite. “Tradicionalmente, há muitos anos, analisamos a composição química do leite, como gordura, proteína, lactose, além da microbiologia e da contagem de células somáticas, que indicam inflamações. Esse novo equipamento consegue ir além, avaliando indicadores metabólicos das vacas, que nos fornecem informações sobre saúde, sanidade e até reprodução, como se a vaca está prenha ou não”, destaca. A proposta vai além das análises atualmente obrigatórias por lei, que se concentram em parâmetros básicos de composição e higiene.
Inovação se transforma em resultado econômico
Segundo o pesquisador, a combinação desses dados permite avaliar também o bem-estar animal. “Quando temos um leite com componentes estáveis, sem alterações metabólicas, conseguimos indicar que o animal está saudável e, consequentemente, em boas condições de conforto. Isso nos permite saber que a vaca não está passando por problemas que prejudiquem sua produção”, explica, ao afirmar que, na prática, essa tecnologia representa uma ferramenta direta de apoio ao produtor rural, já que, ao identificar precocemente alterações no metabolismo dos animais, técnicos e profissionais da área poderão indicar intervenções rápidas para corrigir problemas de saúde ou nutrição. “Sabendo disso, é possível agir rapidamente para que a vaca retorne ao seu estado normal, produza mais e com saúde. É inovação que se transforma em resultado econômico”, ressalta o professor.
Embora já existam alguns equipamentos semelhantes em poucos laboratórios do país, o professor destaca que o diferencial da UPF está na integração dos dados e no uso de inteligência artificial, algo ainda inédito no Brasil. “Existem um ou dois laboratórios que possuem essa tecnologia, mas não com essa proposta de analisar o leite em um contexto regional, criar um grande banco de dados e utilizar essas informações como indicadores do que acontece em determinados municípios ou regiões. Para isso entra a inteligência artificial, que transforma esses dados em algoritmos capazes de gerar análises avançadas. Até onde sabemos, ninguém faz isso hoje no Brasil”, afirma.
Dados serão utilizados para monitorar a saúde dos rebanhos
O coordenador do projeto, professor Dr. Ricardo Zanella explica que o objetivo é transformar o leite em uma ferramenta estratégica de monitoramento da saúde dos rebanhos. “Buscamos predizer o bem-estar animal, a eficiência reprodutiva e a qualidade ambiental a partir da composição do leite. Para isso, integramos parâmetros físico-químicos, indicadores metabólicos, celularidade e dados genômicos dos rebanhos, que serão organizados em um banco de dados estruturado”, destaca.
Essas informações, segundo o coordenador, serão tratadas com técnicas avançadas de inteligência artificial, capazes de desenvolver modelos preditivos. “Os modelos permitirão identificar precocemente distúrbios metabólicos, problemas reprodutivos e alterações ambientais, apoiando decisões rápidas, melhorando o bem-estar animal, aumentando a eficiência produtiva e fortalecendo a sustentabilidade dos sistemas leiteiros”, completa.
Além destes dois equipamentos, está prevista a incorporação de um sistema de espectrometria de fluorescência de raios-x por energia dispersiva, que permitirá identificar e quantificar metais pesados no leite, contribuindo para análises de qualidade ambiental e segurança alimentar.
Para o gerente de prestação de serviços da UPF, Clóvis Tadeu Alves, o projeto representa um novo patamar na atuação da UPF junto ao setor produtivo. “O projeto Tecnologias de Inteligência Artificial no Setor Leiteiro marca um novo capítulo na prestação de serviços da UPF. Além de modernizar completamente o parque tecnológico do Sarle, a iniciativa integra o monitoramento de saúde, reprodução e qualidade ambiental por meio de IA. Com essa nova infraestrutura, a Universidade amplia seu portfólio de análises e assume protagonismo em ações disruptivas, impulsionando a competitividade e a eficiência de toda a cadeia leiteira do Rio Grande do Sul”, afirma.
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