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Estudo relaciona comportamento e sistema imunológico em peixes

  • Por: Assessoria de Imprensa
  • Fotos: Divulgação

Pesquisa, feita pela UPF em parceria com a UFSM, foi publicada na revista Scientific Reports do Grupo Nature

Os mecanismos de resistência e o comportamento de um indivíduo estão profundamente conectados. Distúrbios comportamentais humanos como o autismo, a esquizofrenia e a depressão estão associados à disfunção do sistema imunológico, com níveis alterados de citocinas, que são moléculas que fazem a comunicação entre diversos tipos de células e tecidos, inclusive com o sistema nervoso central. Com base nessas informações, a doutoranda Karina Kirsten, orientada pelo professor Dr. Leonardo José Gil Barcellos, desenvolveu a pesquisa “Primeira descrição da relação entre o comportamento e o sistema imunológico em peixes”. O estudo, desenvolvido em parceria entre o Programa de Pós-Graduação em Bioexperimentação da Universidade de Passo Fundo (PPGBioexp) e o Programa de Pós-Graduação em Farmacologia da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), foi publicado na revista Scientific Reports, publicação do Grupo Nature. A pesquisa também contou com a coorientação do professor Dr. Luiz Carlos Kreutz e a participação da mestranda Débora Fior.

Embora a interação entre o sistema nervoso e o imune já tenha sido investigada, os estudos foram feitos em mamíferos. O que o grupo propôs foi mostrar que existem outras espécies que podem ser utilizadas como organismos modelo. Nesse ponto, entra em ação o zebrafish, espécie animal que tem sido cada vez mais usada em função de sua semelhança genética com o ser humano, além da sua rápida reprodução e baixo custo de manutenção. Com o peixe em mãos, foi possível avaliar a variação de diversas citocinas para verificar se havia diferença na expressão gênica dessa molécula no cérebro do animal. O que se observou é que a expressão de diversas citocinas foi diferente, de acordo com o comportamento.

Para o orientador da pesquisa, Dr. Leonardo José Gil Barcellos, esse artigo é um grande marco e referencial teórico para as pesquisas do Laboratório de Fisiologia de Peixes da UPF e para o Programa de Pós-Graduação em Farmacologia da UFSM, sobre as relações do comportamento com o sistema imune. "Nosso próximo passo é determinar o fluxo dessa relação, a partir de algumas ponderações: são as alterações imunológicas que provocam alterações de comportamento? Ou é o padrão de comportamento e a personalidade que modulam o sistema imunológico? Enfim, um artigo que abre diversas possibilidades de investigação e coloca o Laboratório em evidência na ciência internacional", destaca Barcellos.

De acordo com o professor Dr. Luiz Carlos Kreutz, a pesquisa representa um avanço significativo no estudo do comportamento. “A possibilidade de se avaliar em tempo real a expressão de genes imunológicos no cérebro do peixe, e entender como isso poderia estar relacionado ao comportamento, permite que se compreenda um pouco melhor as atitudes observadas em outras espécies animais, inclusive em humanos. Um indivíduo imunologicamente mais apto tem um comportamento mais explorador, ou vice-versa? Há várias questões em aberto e o uso do zebrafish permitirá contribuir no estudo dessa importante e nova área do conhecimento”, ressalta.
De acordo com Karina, a pesquisa é importante em razão de que mostra a relação entre o sistema imune, que é a defesa do corpo, e quanto ele pode estar interferindo no comportamento de várias espécies.

Ela explica que foram feitos dois testes, separando os peixes de acordo com a personalidade. Eles foram divididos em grupos para se analisar o comportamento daqueles que preferiam interagir socialmente e aqueles que preferiam ficar afastados, e aqueles que tinham uma atitude exploratória e aqueles que não tinham. “Nossas descobertas mostram que a interação neuroimunológica em peixes é semelhante aos modelos atuais de mamíferos, destacando o potencial do zebrafish como organismo modelo para estudar relacionamento imune-comportamental. Nos cenários estudados, as disfunções imunitárias, quando associadas a alterações comportamentais, teriam um maior impacto ecológico e poderiam contribuir para reduzir a população de peixes no habitat”, relatou, ressaltando que este estudo pode ajudar na compreensão de doenças como autismo, depressão e esquizofrenia.

O artigo publicado é open access e pode ser acessado no link https://www.nature.com/articles/s41598-018-19276-3