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Por um mercado de trabalho que não julgue cor, credo e orientação sexual

  • Por: Caroline Simor
  • Fotos: Leonardo Andreoli

No mês que celebra o Orgulho LGBTQI+ faz-se necessária a reflexão sobre o preconceito nos mais diversos ambientes. O Balcão do Trabalhador da UPF é uma das ferramentas neste enfrentamento

Uma pesquisa realizada em 2019 traz dados inquietantes sobre a comunidade LGBTQI+. De acordo com o levantamento feito pela  Center for Talent Innovation, 61% de funcionários gays e lésbicas decidem esconder sua sexualidade de gestores e colegas em razão do medo de perderem o emprego. Os números são altos em várias áreas: 33% das empresas do Brasil não contratariam para cargos de chefia pessoas LGBT; 41% dos funcionários LGBT afirmam terem sofrido algum tipo de discriminação em razão da sua orientação sexual ou identidade de gênero no ambiente de trabalho; e 90% de travestis se prostituem por não terem conseguido nenhum outro emprego, até mesmo aquelas que têm boas qualificações. Pensando em ser uma ferramenta para transformar esse cenário, o Balcão do Trabalhador, projeto de Extensão da Universidade de Passo Fundo (UPF), desenvolve diversas ações. No Mês do Orgulho LGBTQI+, que encerra neste dia 30, promover a reflexão foi o objetivo.

De acordo com a professora Dra. Maira Tonial, coordenadora do Balcão, observa-se que hoje, no ambiente de trabalho, os profissionais LGBTQI+ trabalham de forma mais produtiva, ao passo que se sentem protegidos e incluídos. Contudo, como é de conhecimento de todos, não é isso que acontece diariamente, principalmente nas grandes empresas onde as regras são rígidas, mas a fiscalização nem tanto. “Ocorrem agressões verbais, muitos não têm liberdade de se locomover dentro da fábrica ou empresa, por medo, pois sofreram ameaças, muitas são discretas ou mesmo de forma implícita, mas quem é LGBTQI+ sabe que quem ameaça é capaz de colocá-las em prática, dentro e fora do ambiente laboral”, relata.

A professora destaca que muitos, quando procuram empregos, não revelam sua orientação sexual por receio da interferência na contratação, outros são chamados para o cargo, mas seus chefes de forma imprudente os induzem a não revelar aos colegas sua orientação sexual para manter as aparências na empresa. Para ela, essa postura das empresas faz com que os funcionários ou candidatos às vagas se sintam menosprezados, ainda que sua capacidade de trabalhar seja igual a de qualquer outra pessoa, ou, por vezes, até maior, mas acabam não sendo contratados por sua orientação sexual. 

Por outro lado, algumas empresas adotam medidas de inclusão a essas pessoas, por meio de atividades com todo o corpo de funcionários, palestras, aconselhamento pessoal voltados tanto para quem sofre a discriminação, quanto para quem a pratica. Outras, de acordo com Maira, são mais rigorosas e possuem regras inflexíveis, onde o preconceito gera a demissão. “Ao passo que é provada a orientação, a empresa toma as devidas providências, e muitos dizem servir de exemplo para não ser praticada por outras pessoas. A forma mais eficaz de tal fato não acontecer, é conversar com os funcionários LGBTQI+ para ter informações das formas mais comuns de preconceito no ambiente laboral, visando não permitir que medidas como essa sejam praticadas”, pontua. Na opinião da coordenadora, se toda empresa tiver uma política de proteção e o funcionário se sentir seguro em seu trabalho, a produção rende mais, gerando mais lucros e dessa forma empregado e empregador estarão em harmonia.  

Mudanças se fazem com ações
O Balcão do Trabalhador, com algumas parcerias, trabalha tanto com empregados quanto com empregadores, no sentido de orientação para a prevenção, realizando palestras, conversas ou mesmo atendimentos presenciais. “A grande maioria das vezes em que somos procurados, escutamos a famosa frase ‘preciso apenas de uma informação’, mas no decorrer da conversa percebemos a discriminação de forma escancarada nos fatos relatados e o medo de quem nos relata de perder o emprego ou sofrer mais”, conta, ressaltando que o Balcão procura, além de aconselhar juridicamente, mostrar que é possível ser diferente. 

Egresso da UPF e membro da Comissão da Diversidade da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB/RS), Vagner Oliveira sofreu na pele essa realidade. Assumidamente gay, ele teve portas fechadas e teve que buscar forças para enfrentar as brincadeiras de mau gosto, as ofensas e o medo.  “Muitas vezes, por estar inserido em uma profissão tida como formal, eu sofri na pele o preconceito e várias vezes tive que viver um personagem para poder ser aceito. Hoje, com coragem, abri meu próprio escritório e atuo com orgulho nessa profissão”, lembra o advogado que há seis anos atua na Comissão.

Vagner destaca a importância de existirem incentivos para que as empresas contratem profissionais LGBTQI+, mas vê com preocupação que tenham que existir mecanismos compensatórios para forçar a aceitação. “São ações importantes, mas nos fazem refletir que é necessário ter uma premiação para que as empresas contratem, apesar dos currículos e da capacidade das pessoas, independente da orientação. Da mesma forma, existem empresas que se aproveitam da causa para serem vistas como empresas apoiadoras, mas que no fundo apenas se beneficiam”, pontua, lembrando dos projetos Cidadania e Respeito à Diversidade e Empresa Amiga da Diversidade.

Outro ponto que preocupa Vagner é que apenas 5% dos transexuais estão formalmente no mercado de trabalho e, de maneira geral, não existem políticas públicas, nem ações das empresas para que essas pessoas sejam incluídas e saiam da marginalidade. 

Vagner, juntamente com advogados da região, está atuando para consolidar a Comissão da Diversidade na OAB Subseção de Passo Fundo. Para ele, ainda há um longo caminho para vencer essa realidade e, para isso, a sociedade precisa abrir a mente. “É inadmissível que em 2020, numa cidade como Passo Fundo, ainda tenhamos tantas ações de homofobia e ainda não exista a Comissão da Diversidade. Por isso, o trabalho é diário. A Comissão é extremamente importante, justamente porque atua dentro da OAB, que tem respaldo e respeito junto à sociedade e que pode contribuir para esse debate, aprofundando conhecimentos na área, acompanhando casos de homofobia e estando ao lado das pessoas”, ressalta.