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No ritmo das águas e das notas musicais

  • Por: Caroline Simor

Pesquisa desenvolvida na UPF aborda os efeitos da música como enriquecimento ambiental no peixe-zebra

Vários estudos, nas mais diversas áreas do conhecimento, mostram o benefício da música, em especial a música clássica, para os seres humanos e diversos animais. Já é de conhecimento comum que a harmonia da música clássica reduz o estresse e a ansiedade, assim como normaliza a pressão sanguínea, melhora a função imunológica e o desempenho cognitivo. O que a pesquisa desenvolvida em parceria entre o Programa de Pós-Graduação em Bioexperimentação (PPGBioexp), o Programa de Pós-Graduação em Ciências Ambientais (PPGCiamb), a Faculdade de Agronomia e Medicina Veterinária (FAMV) da Universidade de Passo Fundo (UPF) e o Programa de Pós-Graduação em Farmacologia da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) constatou é que esses benefícios podem ser sentidos também nos peixes e podem ajudá-los na convivência laboratorial. O trabalho contou com os pesquisadores professora Me. Heloisa H. A. Barcellos, Dra. Gessi Koakoski,  Fabiele Chaulet,  Karina S. Kirsten, Dr. Luiz C. Kreutz, Dr. Allan V. Kalueff e Dr. Leonardo José Gil Barcellos.

O estudo demonstra que o enriquecimento ambiental auditivo musical também pode ser usado para melhorar o bem-estar de animais de laboratório, com efeitos comportamentais positivos claros, promovendo o alívio do estresse global relatado em várias espécies, incluindo cães, primatas, suínos, cavalos e roedores. Situação contrária ocorre com a exposição crônica ao ruído incontrolável nos laboratórios, que pode prejudicar o bem-estar dos animais experimentais, representando um fator prejudicial nos estudos neurocomportamentais.

A pesquisa utilizou o zebrafish, animal já consolidado como modelo para pesquisas experimentais. A professora Heloisa Barcellos explica que, como os mamíferos, os peixes também têm um sistema auditivo bem desenvolvido. “Os peixes percebem vários sons dentro do ambiente aquático, demonstrando seletividade para o andamento da música e discriminando a intensidade do som, a frequência e a localização da fonte. A audição dos peixes envolve órgãos otolíticos (sáculo, lagena e utrículo), e seus “filtros auditivos” operam na faixa <40 Hz a> 1 KHz, dependendo da espécie”, explica a pesquisadora.

Ela pontua que, apesar dos efeitos negativos dos ruídos em muitas espécies de peixes, a exposição da música clássica acelera a reprodução em várias delas, modulando positivamente seus estados fisiológicos e metabólicos. Essa reação também foi examinada em alguns estudos anteriores, analisando o ambiente aquático.

Modelo que favorece a pesquisa
O peixe-zebra (Danio rerio) é um organismo modelo amplamente usado em pesquisas em neurociência. Genética e fisiologicamente semelhantes a outros vertebrados, como roedores e humanos, eles possuem um repertório comportamental bem descrito. Segundo Heloisa, mesmo com todas as características positivas, a pesquisa de enriquecimento ambiental nesse modelo está apenas começando a emergir. 

O orientador da pesquisa, professor Dr. Leonardo José Gil Barcellos, explica que o enriquecimento utilizando outras modalidades sensoriais é conhecido por diminuir as respostas ao estresse do zebrafish e melhorar o bem-estar, no entanto, pouco se sabe sobre o impacto da exposição ao som e seu potencial como enriquecimento auditivo, no comportamento e na fisiologia do peixe-zebra. Além de despertar interesse científico, essa questão também se torna importante na prática, já que as instalações de pesquisa do peixe-zebra usam rotineiramente sistemas aquáticos com água circulante e/ou tanques estacionários com aeradores e filtros de água, cada um gerando ruído de fundo significativo. 

De acordo com ele, embora críticos em termos de bem-estar animal e reprodutibilidade de dados, esses aspectos não foram sistematicamente avaliados em laboratórios de peixe-zebra. Da mesma forma, apesar dos efeitos positivos bem conhecidos do enriquecimento musical ambiental em roedores e outras espécies, não existem estudos avaliando os efeitos da música sobre o comportamento e a fisiologia do peixe-zebra. “Para abordar essa lacuna de conhecimento, examinamos neste estudo os efeitos do enriquecimento auditivo ambiental através da exposição crônica à música clássica em respostas fisiológicas e comportamentais do peixe-zebra. Nosso foco principal é avaliar como a exposição repetida a esse enriquecimento auditivo pode modular o comportamento relacionado ao estresse/ansiedade do peixe-zebra, além das respostas endócrinas (cortisol) e imunológicas, por meio da análise da expressão de genes chave desses sistemas”, pontua Barcellos.

O que se pode concluir até o momento, é que os peixes-zebra expostos duas vezes ao dia à uma seleção de músicas do compositor Antonio Vivaldi, apresentaram comportamento menos ansiosos e mais ativo, em comparação com aqueles que não eram expostos. Os peixes que estavam em ambiente enriquecido com música também mostraram reduzida expressão de genes pró-inflamatórios, assim como a maior expressão de BNDF no cérebro. Em conjunto, esses dados sugerem que o enriquecimento auditivo usado em peixe-zebra pode ser um fator potencial para modular suas respostas comportamentais e imunológicas, trazendo benefícios ao bem-estar da espécie, assim como em seres humanos.

Em resumo, o estudo relata que a exposição duas vezes ao dia à música clássica pode trazer benefícios em relação ao ruído de fundo do equipamento em laboratório. Nesse caso específico, não foi estabelecido que o conteúdo melódico da música seja responsável pelos efeitos aqui relatados, embora alguns estudos mostrem que os animais reagem de maneira diferente à música e a outros sons, como a estática. “Estudos mostram que o som musical por si só pode ter um efeito benéfico sobre os animais, e, portanto, nossas conclusões são limitadas ao enriquecimento auditivo em geral, e não ao estilo musical mais especificamente”, finaliza Heloisa.