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Pesquisa da UPF é reconhecida mundialmente por contribuição científica

  • Por: Jéssica França
  • Fotos: Gelsoli Casagrande

Estudo analisou capacidade de degradação de solos contaminados e foi pauta de duas publicações internacionais

O Programa de Pós-Graduação em Engenharia Civil e Ambiental da Universidade de Passo Fundo ((PPGEng/UPF), ligado à Faculdade de Engenharia e Arquitetura (Fear), desenvolveu o projeto de pesquisa “Biorremediação aplicada em material contaminado com hidrocarbonetos”. O projeto, que iniciou em 2007 sob a coordenação do professor Antônio Thomé, com a contribuição de alunos e estagiários e de outros professores e pesquisadores da Fear-UPF, do PPGEC-UFRGS e da University of Illinois at Chicago-USA, foi reconhecido mundialmente pela significativa contribuição à comunidade cientifica na área de remediação de áreas contaminadas.

De acordo com Thomé, quando foi implantada uma usina de biodiesel em Passo Fundo, ocorreram alguns acidentes com caminhões, gerando a oportunidade e a necessidade de estudos sobre o solo, avaliando a capacidade de degradação dos hidrocarbonetos, como gasolina, diesel e biodiesel. “Nosso diesel tem uma mistura de 7% de biodiesel, então, tínhamos uma série de dúvidas sobre qual seria a capacidade de nossos microrganismos, ou seja, perguntas relacionadas às bactérias que vivem no solo, degradarem, consumi-lo para sua alimentação deixando o meio ambiente livre desse resíduo”, explica o professor.

O trabalho buscou descobrir quanto tempo o contaminante demora para se degradar no meio ambiente, assim como identificar o ciclo dos microrganismos e o que é possível fazer para acelerar o processo de degradação. “O projeto trabalhou com várias técnicas de biorremediação. Essas técnicas utilizam microrganismos que vivem no solo e que estão ali com outras funções, mas que têm capacidade de degradação. Então, foi feito um estudo de biorremediação com bioestimulação através de ventilação, procurando verificar a melhora no desempenho dos microrganismos”, explica. 

Descoberta

Realizando estudos em laboratório e em campo, a pesquisa conseguiu descobrir a capacidade de retenção dos contaminantes em solos. “Descobrimos que o nosso solo, em um acidente com hidrocarbonetos, tem uma capacidade limitada de 4% de retenção, o resto vai migrar para o lençol freático ou vai evaporar. Ele não consegue reter mais do que isso, o que foi uma boa descoberta”, afirma.

A pesquisa também descobriu que, sob a ação de estimulantes, esses nutrientes no solo ajudam os microrganismos a se reproduzirem, melhorando sua capacidade de degradação. “Descobrimos que sozinhos (atenuação natural) esses microrganismos conseguem degradar o contaminante em até 180 dias, enquanto que, com a estimulação, o tempo para a mesma capacidade de degradação reduz para aproximadamente 20 dias”, ressalta. 

Pesquisa foi a campo 

O estudo também foi realizado no campo experimental da UPF, utilizando caixas de água de dois mil litros e de solo contaminado. “Tivemos uma grande descoberta, de que a água da chuva e a adição de nutrientes têm a capacidade de liberar o contaminante da partícula do solo, fazendo o contaminante andar no solo. Então, o que, em laboratório, foi caracterizado por 4% de capacidade de retenção, mostrou resposta diferente em campo. Realizamos um experimento simulando chuva para tentar comprovar que, com a adição de nutrientes, pode haver um efeito nocivo devido à liberação do contaminante e o espraiamento da contaminação”. 

No passado, quando ocorria um derramamento de hidrocarboneto, o processo de acompanhamento do dano consistia na construção de um poço para verificar se os microrganismos estavam degradando. Com isso, era realizada a coleta de amostras de solo para avaliação e eram encaminhadas para o órgão ambiental. Porém, a pesquisa desenvolvida na UPF conseguiu demonstrar que os microrganismos não degradavam tudo e o que estava ocorrendo de fato era a migração para outras camadas mais profundas. “Como o poço era feito em somente um local e uma profundidade, mostramos que o que estava se fazendo na prática da engenharia ambiental estava errado. Hoje, recomendamos que, quando ocorrer um derramamento, se construa poços em diferentes locais, inclusive com maior profundidade do que os espaços não contaminados, pois um dia esse resíduo pode infiltrar-se a esse ponto, e, com isso, vamos ter a real noção da degradação do contaminante no solo”, destaca. 

Como resultado da pesquisa, alguns artigos produzidos por Thomé e equipe foram publicados internacionalmente, sendo um no Journal of environmental Engineering da Associação Americana de Engenheiros Civis, e o outro no Journal of Environmental Technology da Editora Springer, dois meios científicos com alto fator de impacto e bem conceituados pela Capes. “Os resultados da pesquisa hoje parecem óbvios, mas a maioria das pesquisas no mundo eram feitas em uma escala de laboratório, onde se tirava conclusões equivocadas, até nós acharmos o que estava errado e fazermos a comprovação em campo também”, comenta o coordenador do projeto. 

Há 10 anos pesquisando sobre a contaminação de solos, o pesquisador relata que o estudo evoluiu com experimentos sendo realizados a partir da adição de nanopartículas. “Pesquisas sobre esse tema são muito novas no mundo. Existem poucos grupos trabalhando com a nanobiorremediação, com a qual estamos atuando no momento. Hoje, as normas são bastante rígidas, mas, no passado, não era assim e temos muitos contaminantes persistentes. Buscamos encontrar técnicas de descontaminação de áreas urbanas para que estas possam ser reutilizadas sem perigo para os usuários. Dizemos hoje que solo poluído é um problema de saúde pública para as cidades. A meta é que que nossos filhos e netos recebam um planeta melhor do que aquele que nós recebemos”, finaliza.