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Alfabetização: mais do que ler, compreender e ser

  • Por: Assessoria de Imprensa
  • Fotos: Divulgação

Dia Mundial da Alfabetização é lembrado nesta terça-feira, dia 8 de setembro

Criado em 1966, pela UNESCO, o Dia Mundial da Alfabetização é uma ferramenta para lembrar a todos os povos sobre a importância da alfabetização para o desenvolvimento humano e para o desenvolvimento das comunidades e das sociedades. Embora no mundo todo 773 milhões de jovens e adultos não possuam competências básicas de leitura e escrita, professores e profissionais da educação atuam diariamente na elaboração de projetos e ações para superar esse grande desafio: fazer com que todo ser humano, em todo o lugar, possa ler, escrever, compreender e ser alguém.

Esse também é um caminho trilhado pela Faculdade de Educação da Universidade de Passo Fundo (UPF). Ao longo de mais de 60 anos, a Unidade tem sido referência na formação de educadores, na consolidação de projetos que visam levar a formação e no auxílio, por meio de pesquisas, à construção de políticas públicas. 

Para a diretora da Faculdade, professora Dra. Adriana Dickel, apesar de todo o desenvolvimento tecnológico que vive a sociedade contemporânea, esse desafio ainda se coloca de forma premente. 

Ela lembra que um exemplo dessa carência é o fato de o tema ainda estar presente entre os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) de 2015, que previa, em seu 4º objetivo do milênio “assegurar que todos os jovens aprendam a ler e a escrever e tenham conhecimentos básicos de aritmética, e que os adultos que careçam desses conhecimentos tenham a oportunidade de adquiri-los”.

Porque ainda temos tantos analfabetos no mundo?

Atualmente, no mundo todo 773 milhões de jovens e adultos não possuem as competências básicas de leitura e escrita. Isso corresponde a três vezes e meio a população brasileira de pessoas que estão à margem do que a sociedade tem produzido em termos de bens tecnológicos. “Essa situação piora se considerarmos o fato de que essa tragédia não vem sozinha. Ela vem acompanhada da inexistência de planos de enfrentamento dessa realidade, que prevejam e atuem sobre esse problema. É importante saber que menos de 10% dos países possuem leis que garantam a plena inclusão de pessoas na educação formal”, relata Adriana.

Além disso, a professora pontua que pesquisas em diversas áreas revelam que pessoas retiradas da escolarização inicial tendem a ser excluídas e ficar em desvantagem por toda a vida. “Pensemos então que 14% da população mundial não tem acesso à aprendizagem formal da leitura e da escrita por fatores diversos, entre eles gênero, etnia, idade, religião, pobreza, deficiências, condição de migrante, orientação sexual, encarceramento, crenças e atitudes, e por isso, podem ter seu futuro prejudicado pela negligência dos governos”, frisa.

Voltando os olhos para a realidade do Brasil, encontraremos 11,3 milhões de analfabetos, ou seja, 6,8% da população brasileira acima dos 15 anos não sabe ler e escrever. 

Não apenas saber ler

Adriana lembra que, na década de 1970, muitas pesquisas sociodemográficas consideravam alfabetizadas as pessoas que sabiam escrever seu próprio nome. Passados 50 anos, já não é mais possível dizer que esse é um critério suficiente. 

No Brasil, a Fundação Paulo Montenegro e a Ação Educativa desde 2001 realizam pesquisas que avaliam o grau de alfabetismo da população brasileira. Para eles, é considerada analfabeta funcional a pessoa que, mesmo sabendo ler e escrever algo simples, não tem as competências necessárias para satisfazer as demandas do seu dia a dia e viabilizar o seu desenvolvimento pessoal e profissional. Por outro lado, é considerada alfabetizada em nível pleno a pessoa que lê textos de maior complexidade, analisando e relacionando suas partes, comparando e avaliando informações e distinguindo fato de opinião.

Para a diretora, os dados relativos a esses conceitos, no Brasil e no mundo, não são os mais promissores. Ela destaca que, no mundo, cerca de 617 milhões de crianças e adolescentes não alcançam os níveis mínimos de competência de leitura e escrita. Já no Brasil, as pesquisas que resultam no Índice de Alfabetismo Funcional, em 2018, indicaram que 30 % dos brasileiros entre 15 e 64 anos são analfabetos funcionais. “Isso significa dizer que mesmo aqueles que têm acesso à escolarização formal saem da escola sem desenvolver as competências plenas de um sujeito alfabetizado. 

Para se ter uma ideia, recorda Adriana, apenas 13% dos jovens que saem do Ensino Médio podem ser considerados alfabetizados funcionalmente, e somente um terço dos que atingem o ensino superior é proficiente em leitura e escrita. “Isso implica dizer que dois terços dos ingressantes no ensino superior não estão preparados para aprender e atuar com autonomia usando a leitura e a escrita, o que compromete seguramente a sua formação profissional. Além disso, é importante salientar que há mais de 10 anos, os índices que sinalizam a qualidade da educação no Brasil encontram-se estagnados. Isso deriva do fato de que, entre outras coisas, há a ausência de políticas públicas para o enfrentamento dessa problemática”, pondera.

Uma realidade que precisa ser enfrentada

Na opinião da professora Adriana, o enfrentamento dessa realidade passa necessariamente, mas não só, por políticas que primeiramente reconheçam o problema e assumam a necessidade de seu enfrentamento. 

Para ela, a precariedade do processo de alfabetização tende a levar as pessoas à exclusão da vida econômica e social por toda a vida. O que significa, de acordo com a professora, que o problema do alfabetismo, isto é, do domínio da leitura e da escrita, não é somente uma questão pedagógica. “Ele transcende as fronteiras da escola e dos sistemas de ensino, alcançando as políticas de emprego e renda das famílias. Uma família que requer a mão-de-obra de todos os seus integrantes para prover o seu sustento não tem a escolarização como prioridade e também restringe as expectativas de vida de suas crianças e jovens”, destaca.

A diretora da Faculdade salienta que, no âmbito das políticas educacionais, o país carece de uma política objetiva de erradicação do analfabetismo. Outro elemento importante, de acordo com ela, ocorre dentro das escolas. Para ela, é necessário que os projetos pedagógicos prevejam como seu objetivo a alfabetização plena de crianças e adolescentes para que o quadro de reprodução do fracasso da escola não permaneça. Para isso, é fundamental o engajamento da escola com a família para que esse papel não seja assumido unilateralmente. “Sabemos hoje, mediante muitas pesquisas do campo da Sociologia da Educação, que as disposições familiares são fundamentais ao sucesso escolar. E despertar a consciência para isso pode ser uma função da escola junto aos cuidadores das crianças”, observa.

Formar professores e pesquisar para transformar

Outro elemento fundamental para Adriana é a formação do professor. Para ela, o docente precisa estar atento ao fato de que a leitura e a escrita não são conhecimentos de que se pode prescindir para que o processo de escolarização aconteça. “O engajamento das crianças e jovens no processo de sua formação escolar depende em muito da sua competência para aprender e atuar com a escrita e a leitura. Uma criança que a seu tempo não aprende a ler e a escrever com autonomia será um jovem com muitas dificuldades para prosseguir os seus estudos em níveis mais avançados”, explica.

É neste ponto que a UPF e a Faculdade de Educação tem sua relevância destacada. Conforme Adriana, a Universidade tem um papel muito importante no sentido de romper com o ciclo vicioso de reprodução do fracasso na medida em que forma professores. “A UPF é uma das poucas instituições do Rio Grande do Sul que forma professores em todas as áreas do conhecimento. Isso em tempos de crise não é tarefa fácil de ser mantida. Mas com isso temos uma oportunidade incomum de assumirmos o preceito de que todo o professor, independente da área de ensino a que se dedica, é, na escola, um professor de leitura e escrita”, conceitua, destacando que há um costume de atribuir esse papel ao professor de anos iniciais e ao professor de Português. 

Outra preocupação direciona as atenções especificamente para a Faculdade de Educação e o Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGEdu) e o seu compromisso de manter pesquisas e estudos sobre o tema. 

Na opinião da professora, não se pode prescindir de produção de conhecimentos que impactem na realidade. E é isso que faz o Grupo de Estudos e Pesquisa em Alfabetização, cujo objetivo é não somente produzir conhecimentos sobre o que é e em que condições e como se dá o processo de aprendizagem da leitura e da escrita, mas também fazer com que esses conhecimentos atinjam as escolas, os professores, as comunidades. 

Adriana ressalta que, uma das formas encontradas pelo Grupo para disseminar esses conhecimentos, além da atuação em cursos de graduação e de pós-graduação stricto sensu, são os cursos de especialização lato sensu e de extensão. “Atualmente, estamos oferecendo o curso de Alfabetização e Letramento para trazer aos participantes o que temos de pesquisa mais avançada na área, para que ela possa atingir as classes de Educação Infantil e Anos Iniciais do Ensino Fundamental e ajudar a vencer os problemas que o Brasil carrega há centenas de anos, principalmente junto à população que depende da escola pública”, pontua.