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“Estamos todos reunidos pela literatura”

  • Por: Assessoria de Imprensa
  • Fotos: Camila Guedes

Projeto Literatura em Diálogo trouxe o universo da obra Fahrenheit 451, do escritor Ray Bradbury, para debater a importância da literatura e do pensamento crítico. Atividade fez parte da programação da VI Semana do Conhecimento da UPF

“Existe mais de uma maneira de queimar um livro. E o mundo está cheio de pessoas carregando fósforos acesos”. O trecho da obra de ficção científica escrita por Ray Bradbury em 1953 deu a tônica da noite. Cerca de 600 pessoas tinham em mãos fósforos. A diferença foi que, na noite dessa terça-feira, dia 3 de setembro, eles não foram acesos para queimar livros, como escrito por Bradbury. Pelo contrário, simbolizavam o desejo de que cada vez mais pessoas tenham acesso a eles.

Foi pelo “direito de ler”, como disseram as crianças após declamarem poesias em uma das inúmeras intervenções realizadas ao longo da noite, que foi realizada mais uma edição do projeto Literatura em Diálogo. Com o tema “Aluno-protagonista: leitura, (anti)intelectualidade e (trans)formação em Fahrenheit 451, de Ray Bradbury”, o evento, promovido pelo curso de Letras e pelo Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade de Passo Fundo (UPF), encerrou o segundo dia de programação da VI Semana do Conhecimento. A obra escolhida para debate foi Fahrenheit 451, romance distópico que se passa em um futuro em que todos os livros são proibidos e o pensamento crítico é suprimido. 

No livro, qualquer pessoa que é pega lendo livros é punida e os livros são queimados pelos bombeiros. O número 451, inclusive, é uma relação à temperatura de queima do papel em graus Fahrenheit, o equivalente a 233 graus Celsius. “É uma obra muito importante na produção literária do século XX. É forte, é distopia. É algo que podemos até achar que está fora da realidade, mas talvez o nosso papel seja de, sem pretensão nenhuma de esclarecer por completo, convidar a todos a pensar se essas distopias são realmente parte de um futuro que jamais alcançaremos”, pontuou a coordenadora do projeto e mediadora do debate da noite, professora Dra. Ivânia Campigotto Aquino. 

Por meio de música, dança, poesia e teatro, o evento convidou o público a estar dentro do livro. “A literatura dialoga com as mais diferentes formas de arte. E nós queremos levar o aluno a uma vivência e experiência a partir do texto de uma forma que ele perceba que a formação, em todos os sentidos, está interligada com tamanha intimidade a essas produções de texto, pela importância da linguagem, pela importância do dizer. Estamos todos reunidos pela literatura”, disse a professora. 

Espelho da contemporaneidade
Um dos convidados a debater a obra foi o acadêmico do curso de Letras Kaian Lago, que desenvolveu sua monografia sobre o livro. Para Lago, o mais interessante em uma distopia é justamente a ideia de parecer exagerado, algo muito distante. “O autor exagera para que a gente perceba essa diferença. Se fosse mais sutil, ficaria muito parecido com a nossa realidade e passaria despercebido. Se fosse sutil, a gente não iria notar. Ela é extrema, é exagerada para fazer as pessoas perceberem”, ressaltou.  Em função disso, o acadêmico considera Fahrenheit 451 um espelho da contemporaneidade. “No livro, nós vemos um medo muito grande que a sociedade tem da influência. E é algo muito presente hoje. Nós vivemos um momento em que a ciência está se tornando um monstro, em que tudo aquilo que faz pensar é considerado uma forma de doutrinação. É como a má influência combatida na sociedade da obra”, completou. 

Também convidado do debate, o professor dos cursos de Psicologia e Medicina da UPF, Dr. Cláudio Wagner, acredita que o desafio dos professores está justamente em ensinar os estudantes a dialogar, expressar seus pensamentos, ouvir contrariedades e saber conversar sobre isso. “Acho que essa dimensão a gente não pode perder. Não podemos deixar de falar das coisas que consideramos importantes, que são as diferenças, o respeito pelos outros, pela maneira diferente de ser. E nós, como professores, temos a tarefa de estimular os nossos alunos a poder ouvir coisas das quais talvez não gostem, e de escutá-los também, mesmo com opiniões diferentes, porque isso faz parte da universidade. Nós podemos discutir e conversar sobre qualquer coisa dentro de uma universidade”, concluiu.