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Um olhar sobre os filhos do feminicídio

  • Por: Camila Guedes
  • Fotos: Camila Guedes

Exposição na Faculdade de Direito da UPF retrata o que acontece com os filhos das vítimas de feminicídio no Brasil. Só em janeiro deste ano, foram registrados mais de 100 casos no país

Em 2019, somente durante o mês de janeiro, foram registrados mais de 100 feminicídios no Brasil. De fevereiro para cá, apesar de ainda não se ter dados oficiais, a estimativa é de que o número seja ainda maior. Todas mulheres deixaram uma história e, em muitos casos, filhos. E é com o objetivo de olhar com maior cuidado para os filhos dessas vítimas que o Projur Mulher e Diversidade, programa de extensão da Faculdade de Direito da Universidade de Passo Fundo (FD/UPF), apresenta a exposição “Filhos do Feminicídio”. 

Montada no hall da FD, a exposição, que é aberta a toda a comunidade, conta, por meio de objetos, as histórias dessas crianças. De acordo com a coordenadora do Projur, professora Dra. Josiane Petry Faria, a exposição foi pensada a partir de outra mostra realizada em novembro de 2018 que apresentava a representação dos corpos de algumas das mulheres vítimas de feminicídio na região. “Quando se fala nessas mulheres mortas, por vezes, se pensa só nelas e, claro, isso é muito, porque são vítimas, mas elas são mulheres de uma sociedade. E muitas delas são mães. E nos ocorreu pensar no que acontece com os filhos dessas mulheres, para onde eles vão, com quem eles ficam, o que se passa com eles”, explicou. 

Segundo a professora, a equipe identificou um número bastante significativo de crianças que são mortas na frente das mães, por vingança, ou juntamente com elas. Também casos de crianças que são encaminhadas para adoção ou que desapareceram porque foram levadas pelo pai agressor. “São casos muito tristes de escolas, famílias, professores saudosos de crianças que não retornaram mais porque foram vítimas dessa violência”, afirmou Josiane, lembrando que todas as histórias contadas na exposição são reais. “Não são histórias da região, para evitar que haja uma identificação e a gente possa ferir os sentimentos de algumas pessoas. São um pouco distantes de nós, mas todas histórias do Brasil”, completou. 

Dia Internacional da Mulher
Falar sobre esse tema foi uma das formas escolhidas pelo Programa para marcar o Dia Internacional da Mulher, celebrado nesta sexta-feira, dia 8 de março. Para a professora, o Dia da Mulher nunca foi um dia de comemoração, mas sim um dia de luta. “Estarmos em 2019 e ainda precisarmos falar sobre mortes de mulheres por questões de gênero, por serem mulheres, não é algo que me choca. O que me deixa chocada é que antes não se falava sobre isso, não se computavam esses dados. Esses fatos não vinham a público, não tinham espaço nos grandes telejornais”, ressaltou. Ainda segundo a coordenadora, existe, sim, no caso de alguns segmentos sociais, um aumento no número de feminicídios, mas de modo geral o que se percebe é a visibilidade dessa violência. “Uma violência que, de fato, é um absurdo, uma vez que tanto se evolui, tanto se progride, tanto se pensa e repensa, até mesmo dados científicos, e mesmo assim a gente não consegue alterar essa realidade”, disse. 

Projur Mulher e Diversidade completa 15 anos em 2019
A exposição também marca o início das comemorações dos 15 anos do Projur Mulher e Diversidade, completados em 2019. Ao longo do ano, será realizada uma série de ações e atividades comemorativas à data. “A UPF, por meio da Faculdade de Direito, apresentou esse projeto em 2004, quando não se tinha sequer a Lei Maria da Penha. A Universidade é uma precursora no trato e no acompanhamento direto aos casos de violência contra a mulher”, explicou a professora, destacando ainda que o Projur é um dos programas mais completos entre as universidades brasileiras porque não se limita simplesmente à prevenção da violência e à orientação, mas trabalha efetivamente no acompanhamento judicial desses casos. 

O trabalho é desenvolvido por bolsistas, acadêmicos do curso de Direito, como a estudante do oitavo semestre Carolina Marques. Ela conta que escolheu o curso com o objetivo de lutar pelas minorias e a causa feminista sempre lhe interessou. “No Projur, eu me senti acolhida dentro do Direito, me sinto ativa dentro da sociedade, realmente podendo ajudar essas mulheres. São experiências que engrandecem tanto a minha vida acadêmica quanto a minha vida pessoal”, pontuou. 

Junto com a exposição, nesta sexta-feira, a equipe do programa realizará a inscrição de acadêmicos interessados em fazer parte do Projur. As inscrições poderão ser feitas no intervalo das aulas, nos turnos da manhã e da noite.