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UPF desenvolve vacinas experimentais para peixes

  • Por: Assessoria de Imprensa
  • Fotos: Divulgação

A vacina que foi desenvolvida e está em fase de testes é contra a infecção por Aeromonas e induz anticorpos específicos nos peixes vacinados tornando-os mais aptos a se defender de uma possível infecção

Assim como qualquer outra espécie animal, os peixes também adoecem. Neles, as bactérias são os agentes infecciosos mais comuns, seguidos de ectoparasitas, vírus e fungos. A experiência local e regional com a criação intensiva de outras espécies animais, principalmente aves e suínos, que são afetados por inúmeros micro-organismos, assegura que a criação intensiva de peixes não será diferente. Para a prevenção de doenças, a vacinação de aves inicia ainda durante a fase de desenvolvimento embrionária (vacinação in-ovo), e os suínos recebem as primeiras doses de vacina nas primeiras semanas de vida. Por outro lado, a vacinação de peixes ainda é incipiente e feita principalmente em espécies de alto valor comercial, como o salmão, truta e tilápia. Nessa perspectiva, pesquisadores da Universidade de Passo Fundo (UPF), vinculados ao Programa de Pós-Graduação em Bioexperimentação, estão desenvolvendo vacinas experimentais para peixes, principalmente o jundiá, peixe nativo da região, com boa adaptação ao cultivo intensivo e grande aceitabilidade pelo consumidor.

De acordo com o professor Dr. Luiz Carlos Kreutz, coordenador do Programa, com o aumento do cultivo de peixes em todo o país, principalmente do monocultivo de tilápias, e mesmo de outras espécies como carpas e jundiás, observa-se um aumento também dos problemas sanitários causados essencialmente por bactérias e vírus, que encontram no meio aquático muita facilidade de disseminação, não somente entre os peixes cultivados, mas também entre peixes selvagens (não cultivados) e peixes cultivados. “Para evitar perdas econômicas decorrentes dessas infecções é importante um bom manejo de biossegurança, evitando ou minimizando o contato entre peixes selvagens e cultivados. No entanto, em muitas circunstâncias, embora esse contato seja evitado, a água utilizada nas criações é compartilhada, pois se origina de rios, ou depois de utilizada retorna para os rios, servindo de veículo para a disseminação de micro-organismos nas espécies aquáticas. Poucas são as criações onde a água utilizada é totalmente reciclada, pois isso acarreta em custos elevados para remover ou destruir possíveis patógenos nas águas”, explica.

Kreutz esclarece que uma das formas de evitar doenças é por meio do uso metafilático de antibióticos, ou seja, quando aparece um peixe doente, trata-se todos os peixes do lote. No entanto, essa prática não é a mais adequada, pois o antibiótico adicionado à dieta ou à agua tem grande potencial de perdas e, mais importante ainda, pode estar relacionado à indução de resistência antimicrobiana. 

Outra possiblidade, de acordo com ele, é o uso de dietas contendo imunomoduladores, que são moléculas com o potencial de melhorar os mecanismos de defesa dos peixes (sistema imunológico) contra qualquer micro-organismo. E, em última instância, para aqueles micro-organismos com maior virulência e patogenicidade, o recomendado é vacinar os peixes com moléculas obtidas do próprio micro-organismo, assim como se faz com aves, suínos e demais espécies criadas intensiva ou extensivamente.

Segundo o professor, uma das principais doenças dos jundiás é a Septicemia Hemorrágica, causada pela Aeromonas hydrophila, uma bactéria facilmente encontrada em ambientes aquáticos e mesmo no intestino de peixes saudáveis. Ele explica que a Aeromonas é uma bactéria oportunista, que se aproveita quando as defesas imunológicas enfraquecem, principalmente durante o estresse, causando infecções sistêmicas e cutâneas, hemorragias e lesões cutâneas com alto potencial de morbidade e mortalidade. 

Para quem pensa que peixe não se estressa, está enganado. Os pesquisadores lembram que eles são muito suscetíveis ao estresse causado pela presença de produtos químicos na água, principalmente os defensivos agrícolas como glifosato e atrazine, superlotação (excesso de peixe por metro cúbico de água), alterações bruscas de temperatura, como as que se observam na primavera e outono aqui na região do planalto médio gaúcho, alterações da qualidade da água, causada pelo crescimento excessivo de algas ou aumento da matéria orgânica e sujidades, que reduzem o oxigênio disponível nas águas. Tudo isso, de acordo com Kreutz, afeta o sistema imunológico, diminuindo a capacidade do peixe em se defender da agressão de bactérias e parasitas.  

A vacina
O material que foi desenvolvido, e está em fase de testes, é a vacina contra a infecção por Aeromonas.  Ela induz anticorpos específicos nos peixes vacinados tornando-os mais aptos a se defender de uma possível infecção.  

O desenvolvimento dessa vacina é apenas uma das metas do projeto “Profilaxia e diagnóstico de infecções e contaminações de carnes como estratégia para aumentar a segurança alimentar” financiado pela Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Ciência e Tecnologia (SDECT) do estado do Rio Grande do Sul. Além da vacina para peixes, os pesquisadores ligados ao projeto desenvolvem vacinas para suínos, métodos de diagnósticos sorológicos e moleculares para diversas doenças em peixes e suínos e organizam workshops para divulgar aos técnicos e produtores as pesquisas realizadas para que possam ser aplicadas o mais rápido possível, na forma experimental.

Na prática
Após o Workshop em Sanidade de Peixes, realizado nos dias 7 e 8 de novembro, o professor Luiz Carlos, organizador do evento e coordenador do projeto vinculado à SDECT, juntamente com alunos de iniciação científica, mestrado e doutorado, foram até algumas pisciculturas da região para aplicação da vacina experimental contra a Septicemia Hemorrágica de jundiás.  

Ele ressalta que a vacina já foi avaliada em diversos experimentos com jundiás no Centro de Pesquisa Agropecuárias (Cepagro) da UPF, mostrando-se eficaz na proteção dos peixes contra infecções experimentais. Agora, na fase final, a equipe está aplicando a vacina em algumas propriedades selecionadas, com o consentimento dos proprietários. O intuito, segundo ele, é desenvolver a vacina e oferecer o produto final aos interessados, que é um dos requisitos do projeto e da SDECT, e estar preparado para os desafios provenientes da intensificação da piscicultura no estado. O grupo realiza as mesmas ações com as vacinas para suínos. “O desenvolvimento do projeto somente foi possível com o envolvimento de diversos alunos de iniciação científica e alunos do Programa de Pós-Graduação em Bioexperimentação. Ao longo dos últimos anos, pelo menos oito dissertações de mestrado foram desenvolvidas sobre esses temas e vários artigos científicos publicados em periódicos internacionais de destaque, o que qualifica o grupo de pesquisa a dar continuidade nos estudos e se consolidar como grupo de referência no Brasil sobre o estudo do sistema imunológico e desenvolvimento de vacinas para suínos e peixes”, ressalta.