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Descarte irregular, ambiente comprometido, seres vivos afetados

  • Por: Assessoria de Imprensa
  • Fotos: Divulgação

Pesquisa desenvolvida na UPF constatou que os resíduos de medicamentos afetam o comportamento das larvas de peixe e interferem o seu desenvolvimento. Trabalho foi publicado na Scientific Reports do Grupo Nature

Não é de hoje que os pesquisadores têm voltado seus olhares para as reações da natureza frente às ações do ser humano. Exemplo dessa preocupação é a pesquisa “Psicotrópicos no meio ambiente: os resíduos de risperidona afetam o comportamento das larvas de peixe”, desenvolvida por alunos e professores da Universidade de Passo Fundo (UPF), Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). O trabalho, que mostra como a presença de resíduos do medicamento pode alterar o comportamento exploratório dos embriões e larvas do zebrafish, foi publicado na Scientific Reports, uma das revistas do Grupo Nature.

Os pesquisadores destacam que a capacidade de evitar e escapar de predadores contempla comportamentos fundamentais vistos da perspectiva ecológica e interfere diretamente na sobrevivência dos organismos. Detectada no meio aquático, a risperidona pode alterar esse repertório de comportamentos nas espécies expostas. Considerando o risco de exposição nos estádios iniciais da vida, a equipe submeteu embriões de peixe-zebra à risperidona durante os primeiros cinco dias de vida. O resultado apontou que a risperidona causou hiperatividade nas larvas expostas, o que, em um contexto ambiental, pode fazer com que os animais fiquem mais vulneráveis à predação devido à maior visibilidade ou à menor percepção de áreas de risco.

O que chamou a atenção da equipe de pesquisadores é que mesmo na concentração de 0,0003 microgramas por litro, os efeitos foram sentidos e as larvas expostas diminuíram o tempo de imobilidade. As observações indicam um risco potencial para as populações expostas a esse tipo de contaminantes. 

Para o vice-reitor de Pesquisa e Pós-Graduação da UPF, professor Dr. Leonardo José Gil Barcellos, a pesquisa traz um importante alerta para a população. “O que vemos é que, mesmo com uma baixa concentração, os resíduos causam mudanças e alterações no meio ambiente, e, por consequência, prejuízos ao ser humano. A pesquisa não é importante apenas pelos dados que revela, mas também por mostrar que precisamos agir e melhorar nossas ações de controle e mitigação das contaminações que nós e nossas atividades geramos ao meio ambiente”, destacou.

A pesquisa
A investigação foi feita dentro do trabalho de doutorado da aluna Fabiana Kalichak, do Programa de Pós-Graduação em Farmacologia da UFSM, em parceria com a UPF. Orientada pelo professor Barcellos, ela decidiu mudar o foco das pesquisas já desenvolvidas nesse tema e focar na análise do efeito das substâncias durante a fase embrionária do zebrafish. 

Estabelecido o modelo, a equipe selecionou a risperidona, um fármaco utilizado em pacientes com esquizofrenia, transtorno bipolar e transtornos do espectro autista e que já havia sido encontrada em estações de tratamento de esgoto, na água do mar e mesmo em água potável. O grupo fez uma exposição aos embriões do zebrafish durante seus primeiros dias de vida. “Os resultados do primeiro experimento, publicados na revista Environmental Toxicology and Pharmacology, já foram surpreendentes, visto que utilizamos concentrações muito baixas de risperidona e ela interferiu diretamente na sobrevivência dos embriões. Decidimos então continuar os experimentos, analisando não só a sobrevivência, mas os padrões de comportamento desses animais quando expostos ao fármaco”, explica.

De acordo com ela, a pesquisa mostrou que a risperidona não só coloca em risco a vida dos embriões expostos como também muda o comportamento desses animais, deixando eles hiperativos. Ela explica que o zebrafish se desenvolve muito rapidamente e em apenas cinco dias de vida as larvas já nadam ativamente em busca de abrigo (fugindo dos predadores) e à procura de alimento para sua sobrevivência. “Fizemos a exposição à risperidona durante esse período e percebemos que os peixes passaram a ter um comportamento diferente em relação aos não expostos, ficando menos atentos ao ambiente e explorando áreas onde seriam perigosas a eles. Também mostraram alguns sintomas da hiperatividade, o que, do ponto de vista ecológico, pode deixar eles mais expostos a predadores e ainda gerar um gasto de energia desnecessário”, pontua.

Alerta para o descarte de medicamentos
Para Fabiana, pouca atenção é dada quando o assunto envolve os resíduos de medicamento na água, porque, de uma maneira geral, as concentrações são realmente muito baixas. Ela ressalta que ainda não existe nenhum tipo de legislação brasileira que reconheça os níveis seguros desses agentes e que não há tratamento para remoção desses resíduos, o que deixa a população exposta a eles diariamente. “Muitos de nós nem sequer sabe disso ou faz ideia dos riscos. Se podemos constatar os efeitos nos peixes, será que nós humanos estamos seguros quanto ao consumo dessa água contaminada? Esse tipo de experimento, além de chamar atenção para o equilíbrio natural das espécies, mostra que medidas devem ser tomadas em relação a esse tipo de poluente”, ressalta.

Se toda pesquisa, ao tentar encontrar respostas, acaba fazendo ainda mais perguntas, Fabiana quer seguir o caminho e ampliar os resultados. A preocupação agora é saber se os efeitos que a Risperidona provocou nos embriões pode durar até a fase adulta e se os animais conseguem responder adequadamente frente ao predador, ou se sabem identificar uma área de risco. “Também nos questionamos quanto aos demais contaminantes. Afinal, não encontramos no ambiente somente um tipo de fármaco, mas sim um coquetel deles, sem mencionar os agroquímicos, utilizados em lavouras, que também fazem parte das pesquisas do laboratório. Será que a combinação desse tipo de contaminante pode ter efeitos ainda inesperados?”, questiona a pesquisadora.

O artigo publicado na Scientific Reports, uma das revistas mais conceituadas de meio científico e integrante do Grupo Nature, pode ser acessado no link www.nature.com/articles/s41598-017-14575-7.

Além de Fabiana e do professor Barcellos, integram o trabalho os professores da UPF Renan Idalencio,  Heloísa Helena de Alcântara Barcellos e Michele Fagundes, além do recém-doutor João Gabriel Santos da Rosa e do pesquisador da UFRGS Angelo Piato.